"The smallest minority on earth is the individual. Those who deny individual rights cannot claim to be defenders of minorities." Ayn Rand
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quinta-feira, março 13

Considerações

A menina da foto é a prostituta de luxo envolvida na história que levou à demissão de Eliot Spitzer do cargo de governador do estado de Nova Iorque - o seu nome, Ashley Alexandra Dupre, a sua idade, 22 anos. Tecendo alguns comentários:

Em primeiro lugar, é curioso como boa parte da mensagem de Spitzer baseava-se na defesa dos bons costume e da moral, um tipico caso do olha para o que digo e não para o que faço, daí que a sua demissão após o escandalo rebentar tenha sido inevitável. Em segundo lugar, para referir que a fazer fé no que aqui diz o Paulo Pinto Mascarenhas, mais uma vez um jornal dito sério errou escandalosamente quanto à filiação partidária de Spitzer - a maior parte dos jornalistas são tão ignorantes que mete dó, e o mais engraçado é que são estes mesmos jornalistas que tentam fazer passar os americanos por idiotas e incompetentes... funny. Em terceiro lugar, para responder à pergunta do Pedro Arroja, digo que prefiro claramente a reacção cultural americana, mas acho mesmo que a questão não se coloca, uma vez que em Portugal este tipo de história seria muito dificil de ser investigada por qualquer jornal. E em quarto, e último lugar, para dizer que apesar de tudo, incluindo os milhares de dólares por hora que custou, a gaja tem os seus talentos.

terça-feira, março 11

sábado, março 1

Fired Up, Ready to Go

Observar a democracia americana - a democracia moderna mais antiga do mundo - em acção é de cativar qualquer interessado em politica como eu. É ficar mais desapontado com a realidade portuguesa de afastamento da população das decisões que lhe dizem respeito, é ficar desapontado com os politicos portugueses, com a politica nacional. É ponderar como os que há mais tempo praticam a democracia como forma de organização politica conseguem renovar a politica de tal forma que, para um qualquer distraido, a movimentação que se assiste nos Estados Unidos de hoje assemelha-se ao empolgamento encontrado nas jovens democracias. É como se a democracia só agora tivesse chegado à América, e só agora os americanos tivessem descoberto a democracia. É observar a maior e melhor democracia do mundo em acção - com todas as suas falhas, com todos os seus defeitos, mas acima de tudo, com todas as suas virtudes.

Por isso... não, e não, e não... estou farto da politica nacional. Dos compadres Lopes e Menezes, do arquitecto Sócrates, dos camaradas Louçãs e de Sousas, dos armani Portas, do esfingico Silva. Farto deles todos. E como a realidade é dura e estou farto desta gente cujo objectivo na vida é tornar a minha, a vossa, a nossa vida cada vez pior, prefiro não comentar a politica nacional. Fico-me pelos EUA, mesmo que por lá não viva e por lá nada decida. Mas entre a sombria politica nacional e a luz que irradia da democracia americana, eu fico-me por esta última.

domingo, fevereiro 24

Kosovo, Cuba e Chipre

EMBARGO, SHMEMBARGO: IT'S ALL GREEK TO ME

As el Comandante makes his exit, Stephen Hugh-Jones takes a moment to skewer the American trade embargo on Cuba. Not only does it rank among the longest-lasting geopolicy failures in history, but the EU is making the same mistake with the Turkish Republic of Northern Cyprus...

In sum, since the 1980s the EU has been trying, like the United States since the 1960s, to get rid of a regime it disapproves of through impoverishment; a regime, moreover, which, unlike Castro's, practises a tolerable version of democracy, and has never posed any threat to the EU's interests, let alone offered to install the nuclear missiles of its enemies. Like the US, the EU has failed. Yet, like the US, it persists.

The EU accepted the break-up of Yugoslavia; indeed most big EU countries have just rushed to recognise the dismemberment of Serbia by Kosovo's Albanians, which--however strong their claims--threatens the peace of Europe far more than does the existence of the TRNC. Nor can one reasonably try to starve a nation into changing its mind, let alone one that threatens nobody. The EU doesn't try that with Iran or North Korea, still less Cuba. It does try with the Turkish-Cypriots.

domingo, fevereiro 17

Kosovo

Seguindo a vontade de cerca de 90% da população de 2 milhões de habitantes, acaba de ser proclamada pelo parlamento local a declaração de independência do Kosovo. O Henrique Raposo diz que dar a independência ao Kosovo é pior do que um crime. É um erro político. Que nos vais custar muito caro. Eu cá não posso estar mais em desacordo. Um erro seria ir contra a vontade da maioria do povo - tão simples quanto isso. O raciocinio do Henrique é o mesmo que leva o ministro dos negócios estrangeiros português a não receber o Dalai Lama, ou o mesmo que leva poucos a condenarem a Rússia pelo questão tchechena tal como a Rússia devia ser condenada. Os bascos em Espanha? Sim, mas há uma maioria basca a procurar a independência de Espanha? Não me parece... e muito menos de 9 em cada 10. Submeter a vontade da população a decisões politicas estratégicas é que me cheira sempre a erro.

sábado, fevereiro 2

Sobre a Democracia

Como sabem tenho acompanhado de perto o processo das primárias norte-americanas, de certa forma é fácil perceber o interesse que aquelas eleições geram por todo o mundo e como, por exemplo, em mim geram maior interesse do que a própria politica nacional. Tentarei explicar com alguns exemplos o porquê.

Façam uma visita pela página da wikipédia de Barack Obama, Hillary Rodham Clinton ou John McCain. Encontrarão uma descrição pormenorizada sobre a vida de qualquer um deles, e não somente sobre a vida politica, falo claro da vida pessoal e das suas decisões pessoais. Cada um deles enquanto candidato ao cargo mais alto da sua nação, não se importa que o seu percurso pessoal seja referido, aliás, querem que o seu percurso pessoal seja tido em conta, este percurso é tão ou mais importante para a sua eleição do que o percurso politico. Nos EUA, uma pessoa para atingir o cargo de presidente da nação tem de começar a corrida ainda nos primórdios da sua vida universitária. Vejam agora o caso do primeiro-ministro português, José Sócrates, o que se sabia sobre a sua vida pessoal quando o homem foi eleito? Nada, e só agora se vão revelando (num processo não habitual em Portugal, logo classificado pelo nosso primeiro como ataque pessoal e politico) algumas coisas sobre a sua educação, o seu percurso inicial na câmara da Covilhã, etc... Em Portugal para ser primeiro ministro basta ter percurso politico - a vida pessoal de pouco conta (bem, o Santana Lopes talvez discorde neste ponto).

Mas passemos para a vida politica. Quando Sócrates foi escolhido para nosso primeiro o que se sabia sobre as suas opções politicas? Era um socialista como outros tantos, e mais? Nada. O sistema português não favorece a fiscalização politica do seu povo aos seus politicos. As decisões no parlamento pelos deputados são tomadas em bloco. Raramente um socialista vota contra um projecto de um socialista, e vice-versa para os sociais-democratas, centristas, comunistas e bloquistas. Agora veja-se o caso dos candidatos às eleições norte-americanas: é possível estabelecer algumas diferenças entre Clinton e Obama, nomeadamente nas votações que realizaram no Senado, mesmo sendo ambos democratas. Houve leis patrocinadas por Obama contra as quais Clinton votou, e houve leis patrocinadas por Clinton que Obama votou desfavoravelmente - em Portugal tal será inimaginável.

No sistema americano cada um pode pensar pela sua cabeça, no nosso, não. É uma diferença assinalável. Em última análise, no sistema americano cada um pode defender os interesses que bem entender, em Portugal os interesses são defendidos em bloco. Em Portugal há um compadrio podre que começa a ser aprendido logo na base, por exemplo, com as "assinaturas de favor" de Sócrates enquanto engº técnico na câmara de Covilhã para o engº seu amigo da câmara da Guarda... e Menezes não é melhor. Quando rebentou a noticia do financiamento ilegal pela Somague ao PSD, o PS calou-se (não por acaso), e agora que rebentam noticias sobre a vida pessoal de Sócrates, outros se calam (não por acaso).

Da minha parte espero que O Público mantenha o rumo que traçou. No caso da licenciatura foi dos poucos jornais a pegar (e dar cobertura) à noticia - e se na altura a coisa tinha começado na blogosfera, nos casos mais recente é puro trabalho de investigação do jornalista José António Cerejo. Continuo é à espera do dia em que os jornais nacionais também copiem os americanos noutro aspecto, a sua declaração de apoio aos candidatos ao cargo mais alto da nação. O New York Times apoia Hillary Clinton e o Los Angeles Times Barack Obama. Na prática limitam-se a fazer uma coisa que, para quem os lê regularmente como eu, já era evidente. O NYTimes favorece noticias a favor de Clinton, o LATimes o contrário. Em 2004 o Público fez sair em editorial que apoiava John Kerry nas eleições americanas, fico à espera que em 2009 tenha a coragem de apoiar um dos candidatos nacionais ao cargo de primeiro-ministro da nação.

Nos Estados Unidos toma-se posição, em Portugal não. Nos Estados Unidos tudo é por demais evidente, em Portugal não. Nos Estados Unidos existem lobbys, por cá também, mas lá sabemos quem são, por cá talvez não. Nos Estados Unidos posso vir por exemplo aqui e descobrir quem deu dinheiro a quem, em Portugal não. Nos Estados Unidos o cidadão comum envolve-se na politica (o último debate entre Clinton e Obama parecia um jogo de futebol), em Portugal não. Nos EUA há voluntários a trabalhar para este ou para aquele candidato, em Portugal há juventudes partidárias.

quarta-feira, janeiro 9

Emoção

Eu gosto de politica quase tanto ou mais do que gosto de futebol. Vibro com umas eleições bem disputadas (como as primárias americanas neste momento) como se de uma Liga dos Campeões se tratasse. Na politica, como no futebol, também a técnica e a táctica de cada executante importa - e a ideologia, embora conte muito, não é o único elemento ponderado, ou então, como explicar o apoio de tanta gente de direita a Obama?

A aparição de Oprah na campanha de Barack Obama em dezembro; o discurso de vitória de Obama; as (quase) lágrimas de Hillary Clinton; a critica forte de Bill Clinton a Obama no último dia antes da eleições em New Hampshire; da inevitabilidade de Hillary à incerteza; da rota imparável de Obama ao regresso de Hillary; do change de Obama ao experience de Hillary em Iowa, que em New Hampshire transformou-se no change, change, change de todos os candidatos; das sondagens falhadas por larga margem; do John McCain que durante o verão parecia não ter hipóteses de ganhar as primárias e agora é visto como um frontrunner (e não se admirem se for Rudolph Giuliani o vencedor final); o ex-pastor batista Mike Huckabee que vindo de parte incerta transforma-se numa possibilidade; do primeiro preto à primeira mulher na casa branca, mas em novembro de 2008 ainda é um republicano que ganha e não há mulher, nem preto, para ninguém...

Agora, digam-me sinceramente, se esta m*rda não é emocionante. É óbvio, e eu cá é que sei, que é. Mas para já, e apesar de gostar muito do penteado de Hillary e dos fatos do Obama, vou-me dedicar a outras coisas emocionantes. É já para a próxima semana que os campos de Melbourne Park vão encher de gente para ver os melhores do mundo num determinado desporto que dá pelo nome de ténis, entre os melhores, estará o melhor de agora e de todo o sempre, e pluribus unum, o verdadeiro man of the moment:

Roger Federer

Man of the Moment


A mulher de Bill Clinton acaba de ganhar as primárias no New Hampshire contra todas as previsões. É nestas alturas que um gajo tem vontade de perguntar por onde anda a Mónica Lewinsky...

segunda-feira, janeiro 7

Reagan, RFK e Obama

A primeira é com dedicatória especial para a Livia Borges (texto retirado daqui):

Watching Senator Barack Obama on Meet the Press last Sunday, I suddenly understood how so many people felt about Robert Kennedy in 1967 and 1968. Here is an enormously talented political figure with the capacity to inspire Americans and remind us of why America is the world's hope. Yet Obama, like Robert Kennedy in 1968, is a freshman senator for whom convention wisdom holds that a presidential run should be another cycle away. Many of Robert Kennedy's advisors pleaded for him to wait until 1972, when the field would be clear for him.

Robert Kennedy died before I was born, but he is my political hero because of his capacity for growth, because of his idealism, because of his toughness, and not the least because he chose to run for the presidency when it was difficult rather than preordained. He heeded the call to run at a time when our country was mired in an ill-conceived and and badly executed war.

RFK declared his candidacy at a time when Americans had come to distrust the words of the occupant of the Oval Office. And when Kennedy finally decided to run for the presidency, he chose to appeal to the better angels of America's nature.

Robert Kennedy famously quoted George Bernard Shaw: "Some men see things as they are and ask 'Why?' I dream things that never were and ask 'Why not?'"

Today I find myself hoping that Barack Obama will think of running for the presidency and say to himself, "Why not?"
A segunda uma afirmação de Obama sobre a influência e importância de Reagan na sociedade americana (texto retirado daqui):
But I think, when I think about great presidents, I think about those who transform how we think about ourselves as a country in fundamental ways so that, that, at the end of their tenure, we have looked and said to ours — that's who we are. And, and our, our — and for me at least, that means that we have a more expansive view of our democracy, that we've included more people into the bounty of this country. And, you know, there are circumstances in which, I would argue, Ronald Reagan was a very successful president, even though I did not agree with him on many issues, partly because at the end of his presidency, people, I think, said, "You know what? We can regain our greatness. Individual responsibility and personal responsibility are important." And they transformed the culture and not simply promoted one or two particular issues.
Tudo isto e muito mais no The Daily Dish de Andrew Sullivan.

sábado, janeiro 5

Ainda Sobre Obama

O seu discurso na vitória do Iowa é brilhante do ponto de vista formal: na duração, no ritmo, na mistura Luther King com W. Whitman, remetendo para a memória das intervenções mais marcantes de L. King (ir a Washington cobrar a factura), e de Kennedy ("Let us begin"). A "esperança" como refrão, por contraponto à "fé" (que é cega); os dois exemplos concretos de duas pessoas sem assistência médica; o despertar da paixão da América por si própria, num final quase apoteótico de apelo à unidade. Absolutamente profissional, em suma.

O problema de Obama, se ganhar as eleições, pode ser o excesso de expectativas. O nosso problema é que ele quer que os "rapazes" abandonem o Iraque e voltem para casa e parece mais interessado numa América mais fechada, centrada nos seus problemas - a redução da dependência do petróleo, por exemplo - e menos interventiva no plano internacional. Não são muito boas notícias, parece-me.
Cristina Ferreira de Almeida, no Corta Fitas.

Discordo da observação final, parece-me que uma América mais fechada é exactamente o que é necessário neste momento. E no fim, quando o mundo com os seus problemas precisar da América (se precisar), será o mundo a reclamar por esta, e esta virá como sempre veio ao longo de todo o século XX. Em suma, uma América intervencionista porque lhe pedem, e não porque se arroga no direito de...

Imparável?

Em New Hampshire, a mais recente sondagem, efectuada após as primárias no Iowa, atribuí uns espectaculares 10 pontos de vantagem a Barack Obama (37%) sobre Hillary Clinton (27%).

sexta-feira, janeiro 4

O Discurso

Para quem gosta, para quem não gosta, independentemente de tudo o resto, talvez o melhor discurso que alguma vez ouvi *.

* Tá bem, tenho 24 aninhos... mas então oiçam e depois digam qualquer coisinha... ok?

Man of the Moment


Barack Obama ganhou o caucus do estado do Iowa. Lá se vai a inevitabilidade de Hillary Clinton como candidata democrata às eleições americanas e fica a reflexão sobre a vitória de um candidato negro num estado com 95% de eleitores brancos - e onde durante muito tempo Hillary Clinton tinha larga vantagem nas sondagens. Agora venha New Hampshire, com a minha previsão de que ou Clinton consegue travar Obama nesse estado, ou o candidato negro com nome de ditador iraquiano caminha para uma vitória imparável.

quinta-feira, janeiro 3

Remember Rwanda?

O Quénia parece seguir no mesmo caminho. O relato do The Guardian sobre os recentes acontecimento é, no minimo, horripilante:
Asked if they knew about the church massacre, all the youths nodded. "We were there," said one man, who said his name was Patrick. "We got a message that the Kikuyus were arming near the church. So we went to give reinforcements to the Kalenjins there."

Another man carried on: "The men and women had babies and small children, but they carried pangas to defend themselves. Is someone with a panga innocent? It is not our custom to kill women and children. We told them to come out of the church, but they locked the door and refused to come out. So we burned them."

A third youth spoke. "They were not worshipping in the church. They were hiding. That makes it a cave not a church. Let Kibaki send a plane for the Kikuyus. They can go ... or they will be killed."
E pensar que o Quénia, não faz muito tempo, era visto como um potencial exemplo para o continente africano.

terça-feira, janeiro 1

Falta de Bons Exemplos

For all its flaws, an example to others

The example Kenya can set for South Africa and the rest of the continent. [...] Whoever wins, what matters next is that the result should be accepted by the loser and Kenyans should be seen to endorse the principle of peaceful competition. Most of Africa has left behind the era of the one-party state, but its people have yet to be fully persuaded that multi-party politics need not be chaotic.
Quénia: 30 pessoas morrem queimadas em igreja no Oeste do país

Esta manhã, o candidato da oposição, Raila Odinga, estimava que mais de 250 dos seus apoiantes tenham sido mortos desde quinta-feira, dia em que decorreram as presidenciais, a maioria dos quais depois de domingo, dia em que foram anunciados os resultados.

quarta-feira, dezembro 19

Para o Bem e para o Mal

Depois de um óscar, um emmy, um nobel, e o prémio principe das Astúrias, dá-me um certo gozo ver Al Gore como runner up na atribuição anual de person of the year 2007 pela revista Time. Aqui fica um excerto da justificação do prémio, bem como o link para o artigo:

sábado, dezembro 15

Eleições Americanas 2008

Parte do que será o mundo nos anos vindouros está dependente do resultado das eleições norte americanas. Os Estados Unidos só por eles não conseguem mudar o mundo, mas o mundo não muda sem os Estados Unidos. Durante o século XX houve duas vertentes de abordagem à politica internacional, uma mais intervencionista (segunda metade do século), outra mais isolacionista (na primeira metade do século). Não é por acaso que em nenhuma das duas grandes guerras - ambas provocadas pelas potências europeias - houve adesão imediata dos norte-americanos. Em ambas foi preciso um motivo para se dar a intervenção: no caso da primeira o ataque alemão ao navio RMS Lusitania onde seguiam 128 americanos a bordo bem como todo o processo ligado ao telegrama de Zimmermann; no caso da segunda o ataque japonês a Pearl Harbor.

Na segunda metade do século os Estados Unidos adoptaram uma politica mais intervencionista, mesmo porque sentiam-se em guerra com a União Soviética. A politica do medo sempre foi uma abordagem interessante para quem quer forçar a adesão popular a projectos dispendiosos (neste caso inclusive com perda de vidas humanas). A guerra do Vietname aparece como o maior exemplo do intervencionismo norte-americano em plena guerra fria. As intenções foram as melhores - não duvido - mas terá feito sentido aquilo tudo? No fim, o resultado de tal guerra foi tudo menos positivo, e aqueles que os americanos se propunham a derrotar, acabaram por sair vencedores. O motivo? Em pouco tempo os jovens americanos que lá estavam a arriscar com a própria vida perceberam que não tinham um motivo real a que se agarrar para acreditar no que faziam - o medo do tentáculo comunista de pouco lhes valia.

Curiosamente, o grande império do mal comunista cairia sem que fosse necessária qualquer guerra. O regime caia de pôdre e vergava-se perante a superioridade do mundo ocidental capitalista replecto de abundância.

A primeira intervenção no golfe pérsico é mais fácil de justitifcar. O Iraque invadia o Kuwait e a intervenção justitificaria-se. Mas George W. Bush pai parou a tempo. Com os soldados iraquianos remetidos ao seu lugar, o Iraque, a guerra podia ser dada como terminada - os iraquianos que resolvessem os seus problemas por sí - e o ocidente que não concordava com Sadham que cortasse relações com este.

Mas uma nova politica começou a apoderar-se da cabeça dos estrategas norte-americanos: a de que com a guerra conseguiam fazer a paz ou, mais que isso, com a guerra conseguiriam transformar o mundo numa big happy family replecta de paises democratas. Começou com Bill Clinton e a intervenção no Kosovo (um problema ainda por resolver) e atingiu o apogeu com George W. Bush júnior. Este último, motivado pelo 11 de Setembro, encontrou a justificação para invadir não um, mas dois paises. E se no caso do primeiro a coisa ainda podia justificar-se, era uma reacção a um ataque (é preciso não esquecer esse facto); a segunda pouca justificação teve. Resultado: os soldados norte-americanos que arriscam a vida no Iraque também não encontram um motivo real para justificarem a sua presença por aquelas zonas - o medo do tentáculo terrorista de pouco lhes vale.

Talvez seja a altura dos Estados Unidos voltarem à politica não intervencionista da primeira metade do século XX. Uma politica mais voltada para a reacção do que para a acção. É verdade que o 11 de Setembro foi uma acção que justificava uma reacção, mas aquela que lhe foi dada não se mostrou justificada. É que eu tenho muito a agradecer aos americanos pela sua participação nas duas grandes guerras mundiais (com especial foco na segunda), mas muito pouco a agradecer-lhes pelo que fazem no Iraque (e da parte mais interessada, os iraquianos, também não parece haver muito agradecimento). Da mesma forma, os soldados americanos que combateram nas grandes guerras voltaram a casa com sentido de dever cumprido e orgulhosos da batalha em que tinham participado, mas esse sentimento, à imagem do que se notava com os soldados que lutaram no Vietname, não se encontra naqueles que arriscam a vida no Iraque, pois não?

O meu candidato favorito nos Estados Unidos dá pelo nome de Ron Paul, mas dada que a vitória deste é dificil e à falta de candidatos no campo republicano que tenham percebido a mudança de paradigma que a má administração Bush impunha ao seu campo, não vejo outra alternativa se não estar aqui neste cantinho do outro lado do atlântico a torcer por Barack Obama.

O Ano em Revista (Politica e Sociedade)

No plano nacional o ano abriu com o referendo do aborto que resultou na vitória (apesar de tudo) esperada do "sim". Foi um referendo marcado pela confrontação de pontos de vista divergentes, mas com confrontação mais moderada que no anterior onde o "não" havia ganho. O referendo permitiu também aos gato fedorento uma das melhores piadas do ano - a paródia com Marcelo Rebelo de Sousa.

A Justiça em Portugal também parece seguir pelas ruas da amargura. Casos mediáticos como o processo casa pia ou o apito dourado parecem estagnados sem resolução à vista, e o caso muito badalado do desaparecimento da menina inglesa Maddie segue pelo mesmo caminho - ao que parece, o ministério público nem conseguirá formalizar qualquer tipo de acusação sobre quem quer que seja. Isto, recorde-se, após ter escorrido tinta nos jornais de solidariedade para com os pais, seguido de um enorme repúdio para com os mesmos no momento seguinte quando foram constituidos como arguidos.

José Sócrates parece rumar tranquilamente para o segundo mandato em 2009. Não é que o ano tivesse passado sem alguma mossa. A começar na questão menor, mas mal gerida, da licenciatura de engenharia civil na universidade independente. Depois nos tiques autoritário que o nosso primeiro aparenta (o caso Charrua foi um exemplo disso). As trapalhadas dos ministros Mário Lino (um jamais que fica para a história) e Manuel Pinho (a do allgarve, por exemplo). Contudo, José Sócrates mantêm o dominio dos meios de comunicação social que lhe permitiram manter o PS no topo destacado das sondagens. Diga-se que, a esse propósito, também houve muito pouco trabalho da oposição para contrariar a festa socialista...

A história da oposição este ano foi feita de novidades que nada de novo acrescentaram. No CDS-PP viram-se livre de Ribeiro e Castro e fizeram ressurgir Paulo Portas. No PSD mandaram embora Marques Mendes e deram o posto a Luis Filipe Menezes, sendo que este trazia consigo colado, qual fénix renascida, Santana Lopes. O que está à vista é que nenhum dos partidos saiu a ganhar o que quer que fosse com tal mudança - e suspeito que a esperança de qualquer um deles é a mesma de muitos outros que lhes antecederam: é Sócrates quem terá de perder as eleições, não serão Menezes ou Portas a ganhá-las.

Por Portugal também passou a presidência da UE nestes últimos seis meses do ano. Ao que dizem por aí foi um sucesso. Permitam-me discordar. Muitas palavras e pouco conteúdo, foi o que foi. De mais marcante fica o tratado de Lisboa - mas esse ainda não foi verdadeiramente discutido em Portugal, e espero seriamente que ainda o venha a ser.

Aproveitando a deixa da União Europeia passo para a politica internacional, onde a UE continua a ser vista como uma carta fora do baralho - e diga-se que por motivos óbvios (que não será o novo tratado a mudar) percebe-se porquê. No panorama internacional, em primeiro lugar, há que destacar as alterações de liderança ocorridas em dois dos mais importantes paises europeus. Em França ganhou Sarkozy e verdade seja dita que espirito de iniciativa não falta ao homem, fazendo uma comparação com o seu antecessor, afirmo convictamente que a França saiu a ganhar. No Reino Unido Tony Blair saiu de cena, sendo substituido por Gordon Brown - este já não me convence, e pelos factos dos últimos dias também não deverá convencer os britânicos.

Na cena internacional, deu-se a passagem de testemunho entre Fidel Castro e Hugo Chávez, com este último a assumir a liderança do grupo pelo socialismo do século XXI da região sul americana - ao mesmo tempo Chávez teve a sua primeira grande derrota desde que assumiu o poder na Venezuela, um claro sinal de esperança. Chávez para consolidar o seu poder usou do dinheiro do petróleo beneficiando dos preços elevados, mas há outro dirigente mundial que disso tem-se servido para fazer ressurgir o seu país na escala mundial: é esse dirigente Vladimir Putin. A Rússia, ao contrário de algumas previsões, é um país a tomar em conta no tabuleiro do xadrez da politica internacional no futuro próximo.

Outra questão importante foi o desenvolvimento do projecto nuclear iraniano - mas esse segundo novas informações estará em lume brando... será mesmo? Cá por mim, suspeito que para o ano existirão novidades. Um caso bicudo para os americanos continua a ser o Iraque, mas esse problema já eles tinham no inicio de 2007 e não foi este ano que o solucionaram. Em 2008, mesmo por força das eleições norte-americanas, deverão existir novidades também neste campo.

O conflito israelo-palestiniano conheceu uma evolução, se bem que o impacto de tal evolução ainda seja dificil de decifrar. Ao contrário dos anos anteriores, este não foi só marcado pela oposição entre israelitas e palestinianos, mas acima de tudo por divisões internas entre os palestinianos que resultaram no surgimento de duas zonas distintas: a faixa de gaza liderada pelo Hamas, a cisjordânia liderada pela Fatah. O impacto global que tal situação terá nas relações entre as partes em questão ainda é dificil de decifrar, mas parece-me que Israel - por muito que muitos tentem escamotear - saiu claramente com maior legitimidade e poder negocial por força dos acontecimentos recentes.

Leitura recomenda: O Ano em Revista (Desporto)

domingo, dezembro 9

Cimeira UE-África

Uns quantos ditadores africanos vieram a Lisboa passear vaidades e fazer propaganda. O governo português fica extremamente satisfeito porque obteve mais um registo para pôr no curriculum da presidência da UE. Uma cimeira com África que já não se fazia desde a última presidência portuguesa em 2000, essa feita em território africano no Cairo. Como todos se devem recordar, um autêntico sucesso. O objectivo da cimeira, como convém, não passa de uma coisa vaga como reabrir o diálogo entre a europa e a áfrica. De concreto, de palpável? Pouco ou nada, excepto os gastos para a realização de tão magnânime espectáculo. No fim, objectivo cumprido, cada um pode seguir a sua vida. Os africanos tratam dos problemas deles que nós tratamos dos nossos. Very nice, very good, keep on moving, men! Da crise no Darfur? Bem, a cimeira não tem tabus e todos os assuntos estão em cima da mesa, mas calma... ok... porque isto afinal, tal como põe as coisas o nosso primeiro, trata-se de uma coisa "entre iguais". Até podemos discordar, mas nada de pôr em causa a legitimidade de um Omar al-Bashir, de um Muammar Kadhafi ou de um Robert Mugabe de liderarem os seus países em completo desrespeito pelas liberdades e garantias do povo - é tão óbvia a razão porque não se recebe o Dalai Lama, como é óbvia a razão porque se recebe o Mugabe e amigos. Quanto a mim, que se f*da a real politik, se é que o leitor me perdoa o desabafo...

De resto e para concluir, gostaria de deixar um breve apontamento entre a comparação entre a cimeira UE-África e a cimeira Ibero-Americana. É óbvio que os lideres africanos ainda tem muito que ensinar aos lideres sul-americanos sobre governos ditatoriais, mas sobre palhaçada e entretenimento deixam muito a desejar quando comparados com Chávez (nem Kadhafi, o big entretainer da cimeira chegou sequer aos pés do lider venezuelano). Não houve um momento "porque não te calas?" nesta cimeira - o que só lhe retira valor - e assim não vale a pena.

Outros Protagonistas, Mesmo Discurso

Na cimeira da Universidade de Lisboa a star figure Muammar Kadhafi exigiu uma indemnização dos países "colonizadores" aos paises "colonizados". Ao que parece, nas palavras de Kadhafi, a existência de colonizadores e colonizados poderia levar a actos de terrorismo, afirmando em jeito de ameaça que "hoje os fracos também conseguem-se vingar". Kadhafi fala por experiência própria, ou não tenha sido a Libia a patrocinar o atentado ao avião da companhia norte-americana da Pan Am em 1988.

Mas Muammar Kadhafi devia começar a reformular o discurso - bem sei, deve ser complicado a um líder que está desde 1969 no poder manter-se actualizado com todos os avanços no mundo - mas o discurso dos "colonizadores" versus "colonizados" já não pega. Devia, sei lá, ir aprender alguma coisa com a malta de Bali (não haveria melhor lugar para uma cimeira sobre alterações climáticas?). Por lá, o discurso já sofreu uma variação de forma a abordar a questão actual mais pertinente. Segundo consta "centenas de pessoas manifestaram-se hoje em Bali para insistir na “dívida” dos países ricos, largamente responsáveis pelas alterações climáticas, para com os países pobres."

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